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Marabá, Quarta Feira, 29 de março de 2017
Morte de médico causa indignação
28/06/2016 - 08:16

A morte do médico Jerônimo Pereira de Freitas, no último domingo (26), mais uma vez mostra o caos em que se contra a saúde pública em Parauapebas, onde falta tudo, dos insumos mais básicos a medicamentos. O Hospital Municipal não conta com estrutura para atender casos mais graves, como foi o que apresentou o quadro clínico do Dr. Jerônimo, que sofreu um infarto por volta de 6 horas e acabou vindo a óbito por volta de 13 horas por falta de atendimento adequado e em tempo hábil.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde diz que todos os procedimentos devidos foram tomados com o objetivo de salvar a vida do médico. Mas, contrariando a versão oficial, não é isso que os colegas, amigos e outras pessoas que estavam no local afirmam. Dr. Jerônimo, que tinha 62 anos, era clínico geral, trabalhava havia 20 anos na rede pública de Parauapebas e era bastante querido na cidade. 

A morte do médico causou enorme consternação e revolta na cidade contra a gestão municipal por conta do descaso em que se encontra a saúde pública. Jerônimo é o segundo médico que morre vítima de infarto e por falta de atendimento adequado no Hospital Municipal. Em abril, outro médico, Bento Torres, também enfartou após uma discussão com o então secretário adjunto de saúde, Juranduyir Soares.

Levado para o Hospital Municipal, ele passou pelos mesmos problemas do colega Jerônimo devido à falta de estrutura e do trombolítico. Dr. Bento  ainda chegou a ser levado para Araguaína, mas acabou não resistindo e morreu.

Falta

Presidente do Conselho Municipal de Saúde de Parauapebas (CMSP), Marden Lima, informa que os trombolíticos estão faltando há meses no Hospital Municipal, inclusive desde a época da morte do Dr. Bento Torres. “É uma medicação importante e indispensável em uma emergência dessa natureza”, destaca.

Além disso, Marden ressaltou que o respirador da sala vermelha de emergência está quebrado desde o dia 3 deste mês, assim como o Raio X. “Como é que uma emergência vai funcionar sem as medicações básicas e Raio X. Todos os pacientes que precisam fazer radiografia estão pagando do próprio bolso”, diz Marden, informando também que o equipamento da UPA, inaugurada em janeiro deste ano, também está quebrado.

“Isso é um total descaso do governo com a saúde e com a população de Parauapebas. Não adianta nada está cortando fita de prédios ‘inaugurados’, dizendo que saúde está indo a mil maravilhas, quando a realidade é essa que estamos vendo, com pessoas morrendo por falta de medicação e outras estruturas que poderiam salvar suas vidas”, acrescenta o presidente do CMSP.

Marden diz ainda que além das ações já tomadas pela gestão anterior do conselho, outras medidas se seguirão visando combater o descaso com a saúde no município por parte da Prefeitura, que ele diz ser um crime. “Vamos cobrar explicações do governo, saber em que está sendo aplicada a verba da Assistência Farmacêutica, porque na compra de medicamentos é que não está sendo, ante ao que estamos vendo nas unidades de saúde”, afirma, frisando que no caso dos trombolíticos é necessário ter pelo menos de três a quatro ampolas por mês nas emergências.

Descaso histórico

Ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde de Parauapebas, Leonice de Oliveira, relata as lutas que travou denunciando e cobrando melhorias para o setor junto ao governo. Ela diz que a combinação descaso e caos vem ocorrendo há muito. Leonice conta que na semana passada os médicos que atentem no HMP chamaram o conselho para relatar as condições precárias em que estão trabalhando, inclusive colocando a falta dos trombolíticos e também do respirador, que está quebrado.

Ainda segundo ela, os médicos disseram que a falta da medicação e do respirador já provocou a morte de várias pessoas que chegaram ao hospital enfartando, como foi o caso recente de um homem que veio a óbito por falta desse suporte, deixando os profissionais revoltados.

“Eles nos expuseram várias coisas, inclusive falta de outras medicações no hospital, que são básicas nos atendimentos. Ainda nos falaram que nem café eles têm para tomar no Hospital”, frisa Leonice, observando que todas essas denúncias já foram feitas pelo conselho. “O governo disse que ia resolver, mas nada foi feito e, agora, perdemos o Dr. Jerônimo”, diz, pesarosa, Leonice.

Hipólito Reis chama governo de mentiroso

Amigo pessoal do Dr. Jerônimo Freitas, o oftalmologista Hipólito Reis não esconde a revolta e indignação pelo descaso com a saúde pública em Parauapebas, que tirou as chances do amigo de sobreviver. Ele diz que a nota publicada pela prefeitura, dizendo que foi dado todo suporte ao médico, inclusive o trombolítico, é “mentirosa”.

“Eu estava no hospital e acompanhei toda a situação. O medicamento só chegou, tempos depois, por meio de outro colega que se empenhou para obtê-lo, mas quando ele chegou, o Jerônimo já estava em choque e não podia mais tomar a medicação, que precisa ser aplicada no tempo certo, logo nos primeiros momentos. Não foi nada conseguida pela administração pública, que trata a saúde do município com total irresponsabilidade, ceifando vidas que poderiam ser salvas se tivessem o atendimento adequado”, protesta.

Hipólito diz que a equipe médica fez o que podia, mas faltou os procedimentos que dependem da estrutura hospitalar, o que o HMP não tem. “Esses detalhes hoje estão determinando quem vai viver ou morrer em Parauapebas. Esse governo não está dando atenção para a coisa mais importante do ser humano, que é a vida. E quando o governo despreza a vida, vemos o que está acontecendo no município”, ressalta.

Hipólito ressalta que a mentira do governo é algo revoltante. “É até brincar com a nossa dor. Você não pode mentir diante de uma situação dessa, que ceifou a vida de uma pessoa tão querida. Não foi aplicado o trombolítico e afirmo isso em qualquer lugar, porque eu estava lá, acompanhando meu amigo que, infelizmente, não teve o único recurso que poderia salvar sua vida, por irresponsabilidade dessa gestão”, declara o oftalmologistas.  

Ele diz que o Dr. Jerônimo, além de ser um bom médico, era uma pessoa extraordinária que sempre priorizou atender as pessoas menos favorecidas. “A sua partida, dessa forma, nos impacta muito. E nos indigna mais ainda saber que a falta de um medicamente vital lhe tirou a chance de sobreviver. Medicação essa, que jamais deveria faltar em uma emergência, principalmente de um hospital de uma cidade como Parauapebas”, diz Hipólito, que publicou uma nota nas redes sociais mostrando toda sua indignação com o caso.

Sindmepa assina nota indignada contra a Prefeitura

Em nota, o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) também mostra sua indignação com o caso do Dr. Jerônimo Ferreira. Segue a integra da nota.

“Apesar de todo o momento de dor pelo falecimento do médico Jerônimo Pereira de Freitas, vítima de infarto agudo do miocárdio, no Hospital Municipal de Parauapebas, os colegas médicos de Parauapebas não podem deixar de protestar contra a propaganda enganosa da Prefeitura Municipal.

O colega realmente recebeu o melhor atendimento possível, mas dentro das precárias condições do Hospital Municipal, por iniciativa de plantonistas e de muitos colegas que nem são funcionários públicos ou que nem estavam no plantão ou sobreaviso. Nenhum mérito da Administração Pública.

O trombolítico que há muito não existe no hospital, foi conseguido por mérito pessoal de um dos colegas que foi até à Serra dos Carajás e comprou, com recursos próprios, a medicação e trouxe para o HMP. Infelizmente, o tempo faz a diferença e houve agravamento do quadro com parada cardíaca e necessidade de intubação e ventilação mecânica. O Dr.Jerônimo teve que ser levado para o centro cirúrgico para ser colocado no ventilador de lá, pois não há aparelho de ventilação mecânica para adultos no Hospital.

Também não havia bomba de infusão, monitor cardíaco e nem material para acesso venoso central. Nem uma sedação decente havia para proceder a intubação. Sabe-se lá quantas pessoas já morreram nas instalações do hospital municipal pela precariedade de atendimento? Apesar disso, as inaugurações teatrais continuam e no dia 1º de Julho vem mais uma. Inaugura-se o prédio do novo Hospital. Hospital que vai abrir sem garantia de recursos para sua sustentabilidade, mas um contrato milionário com uma Organização Social “Sem Fins Lucrativos” já é certo. Mais gente para dividir a fatia do bolo e ganhar nas costas da população e dos servidores públicos decentes”, conclui o comunicado.

  Orçamento da Saúde no município ultrapassa R$ 85 milhões

A Falta de medicamento e outros problemas graves pelo qual passa o setor de saúde de Parauapebas é um contraste diante do volume de recurso repassado ao município pelo Fundo Nacional de Saúde (FNS).  De 2013 até junho deste ano, foram repassados ao município R$ 85.280.086,44 para Assistência Farmacêutica, Atenção Básica, Gestão do SUS, Media e Alta Complexidade Ambulatorial e Hospitalar e Vigilância em Saúde.

Se somar ao repasse municipal, o setor conta com orçamento milionário, que vai na contramão do abismo em que encontra.  Do FNS, foram repassados para Assistência Farmacêutica nos últimos três anos R$ 3.241.323,43. Desse total, foram repassados R$ 933.996,19 em 2013; R$ 937.172,63 em 2014; R$ 899.070,63 em 2015; e até junho deste ano, R$ 471.083,98.

Para a atenção básica de saúde, foram repassados no mesmo período R$ 24.416.259,11.  Foram repassados R$ 7.233.997,59 em 2013; R$ 8.992.299,48 em 2014; R$ 8.522.500,04 em 2015;  e até junho deste ano, R$ 4.099.981,02.

O setor de média e alta complexidade hospitalar e ambulatorial teve repasse de R$ 44.983.127,55, sendo R$ 14.291.513,87 em 2013; R$ 13.316.567,81 em 2014; R$ 11.920.158,24 em 2015; e até junho deste ano, R$ 5.454.887,63.

A área de vigilância em Saúde foi aquinhoada em igual período com 8.279.880,49. Desse valor, foram repassados 2.886.954,04 em 2013; R$ 2.100.527,81 em 2014; R$ 2.108.368,78 em 2015; e R$ 1.184.029,87 até junho deste ano. Para a gestão do SUS, foram repassados nesses três ambos, 24.416.259,11.

Nota prefeitura

Na nota à imprensa, a prefeitura de Parauapebas informou que o  Dr. Jerônimo deu entrada no Hospital Municipal Dr Teófilo Soares de Almeida Filho, às 6h20 da manhã de hoje (domingo, 26), sentindo fortes dores no peito e com desconforto respiratório, em que foi prontamente atendido pelo clínico geral de plantão.

Foi realizado um eletrocardiograma e diagnosticado infarto. Um cardiologista foi acionado que compareceu de imediato ao hospital para o atendimento. O Dr Jerônimo recebeu toda a medicação necessária, inclusive a injeção de Trombolítico (medicação usada em pacientes com infarto), e uma UTI aérea foi providenciada pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) para transportar o paciente para Belém.

O Dr Jerônimo foi assistido por uma equipe multidisciplinar composta por clínico geral, anestesista, cardiologista, neurocirurgião e cirurgião do trauma, e mais a equipe de enfermagem.

Devido à área do comprometimento cardíaco ser muito extensa, gerou uma instabilidade hemodinâmica que impossibilitou a remoção imediata do paciente. Apesar de todos os esforços da equipe de profissionais da emergência, do Centro Cirúrgico, da direção do hospital e da Semsa, lamentavelmente, o Dr Jerônimo faleceu às 13h15 deste domingo.

A Gestão Municipal se solidariza com familiares, amigos e colegas de trabalho nesse momento de dor e perda irreparável. O velório está sendo realizado na Câmara de Vereadores de Parauapebas das 16h às 20h. Após esse horário, o corpo será levado para Belém, onde será cremado, atendendo a um pedido do próprio Dr Jerônimo, ainda em vida.

(Tina Santos)

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